A condição crítica (1950)

por Maurice Blanchot

É preciso talvez se perguntar novamente: por que a crítica, por que esse exercício? Uma paciente de Pierre Janet dizia: “Um livro sobre o qual é preciso refletir torna-se sujo.” Essa observação nos revela, ao que parece, uma das razões de ser da crítica. Mesmo quando esta pouco reflete, ela comenta, ela interpreta; ela se orienta para o mundo. Seu papel é atrair as obras para fora de si mesmas, fora deste ponto de discrição fascinante em que elas se formam e gostariam de se fechar, abrigadas de toda curiosidade pública. Mas, no fim, é preciso que elas se tornem impuras; não vemos por que elas escapariam a essa prova. Quando Rilke escreve a um jovem poeta “As obras são de uma solidão infinita; para agarrar uma obra de arte, nada pior do que as palavras da crítica”, ele exprime apaixonadamente uma reserva que gostaríamos de manter junto com ele, mas que ele próprio não pode senão quebrá-la, pois por que essa solidão de que ele fala tornou-se ela própria obra? Por que essa intimidade violenta foi repousar na calma existência de um livro? No final deste movimento, está o crítico e sua intervenção suja.

É verdade que a crítica, tal como Rilke a rechaça e tal como ela se exprime todo e a cada dia, potência rápida, passageira nula e soberana, destinada a introduzir as obras imprecavidamente no turbilhão e no curso do mundo, é um fenômeno moderno. O século XVIII, que libera a arte do gosto do eterno, mostra que esse trabalho não tem nada a ver com aquele dos autores da arte poética e dos comentadores de Aristóteles e Quintiliano. Sua essência está ligada ao instante e à ação. Sainte-Beuve, nas páginas que consagra a Bayle (1), chama-a (para louvá-la) de “cotidiana”. Ela combate no dia-a-dia. Ela não tem nada de digna nem de preocupada. Ele diz ainda: “O gênio crítico, em seu ideal completo (e Bayle realiza esse ideal mais que qualquer escritor), está nas antípodas do gênio criador e poético, do gênio filosófico com seu sistema; ele leva tudo em consideração, valoriza tudo… Todo espírito que possui em si uma parte de arte ou de sistema só admite de bom grado o que é análogo a seu ponto-de-vista, à sua predileção. O gênio crítico não se mantém em seu centro ou a pouca distância; não escava em seu quintal, nem em sua cidadela, nem sua academia; ele não teme rebaixar-se; vai a toda parte, pelas ruas, informando-se, acercando-se; a curiosidade o seduz, e ele não se poupa dos regalos que se apresentam.”

Talvez não leiamos essas linhas satisfeitas sem uma certa repugnância. Essa alegria da curiosidade sem paixão, esse prazer da busca agradável e sem objetivo (“a curiosidade o seduz”) e mesmo essa vocação da infidelidade, esse gosto pelas inversões que permite a Bayle “fazer compras em toda sorte de autores”, expressão admirável, diz Sainte-Beuve: nós podemos apreciar semelhantes traços, se muito, à época em que vivia Bayle, quando eles significavam a tranquilidade da tolerância, isto é, uma certa forma de insubmissão. Mas o inquietante é que tal tolerância, esta verdadeira felicidade do espírito, nada mais é que uma indiferença de fundo, mesmo que Sainte-Beuve veja em Bayle um espírito crítico mais verdadeiro que Montaigne, pois lhe é inferior na arte e no estilo, mais justo que Voltaire, por não possuir a paixão (não possui sequer a paixão amorosa, e essa falta de desejo amoroso “serviu maravilhosamente bem a sua faculdade crítica”), mesmo que ele nos convide a reconhecer nessa neutralidade perspicaz (ao ponto de Bayle pôr no mesmo plano Pradon e Racine) uma das condições essenciais do gênio crítico, “o qual, quando é pleno, consiste em correr ao primeiro sinal para o terreno de um qualquer, em encontrar-se à vontade, em bancar o mestre e conhecer todas as coisas.” Na realidade, como não dar razão a Rilke?

Averiguemos, no entanto. É preciso reter que a potência crítica pertence ao dia naquilo que esse tem de fugidio, de instantâneo; ela tem a versatilidade do dia que passa, mas isso significa também que ela é movimento e devir, e seu papel é dissolver a solenidade e o caráter abrupto e fechado das obras, entregando-as à reflexão da vida, que, como sabemos, felizmente, não respeita nada. Além disso, compreendemos que o crítico não deve possuir arte própria e talento pessoal: ele não deve ser, ele mesmo, seu centro; ele é um olhar, certo, mas um olhar anônimo, impessoal, vagabundo. Nesse sentido, podemos dizer que a condição do crítico é uma das mais difíceis e exige uma ascese quase insustentável. Um ser anônimo, irresponsável, uma presença sem amanhã, alguém que não deve jamais dizer “eu”, mas no máximo “nós”, o eco potente de uma palavra expressa por ninguém. Não dizemos isso derrisoriamente. Um dos erros das filosofias contemporâneas é ter depreciado futilmente o valor do “nós” (2).

É preciso notar que a tarefa da crítica se dá em momentos antagonistas da “obra de arte”. Ela está fora, e a obra é uma intimidade fechada, ciumenta, que sempre nega, mais ou menos, o de fora. A crítica faz então seu papel quando contraria o movimento da obra. Mas, para contrariá-la, ela deve também se aproximar da obra, compreendê-la, traí-la — não por não compreendê-la, mas na medida em que é um esforço muito grande de compreensão. A interpretação mais fiel é a mais infiel, pois ela abre a obra inteiramente à verdade do dia comum, enquanto para a própria obra trata-se de manter-se fora do que é verdadeiro, de escapar à verdade. Por isso o crítico que se dedica excessivamente à intimidade da arte passa, no fim, à obscuridade da arte e nega a si mesmo. Ele deixa de ser a má vontade, a vontade caprichosa do momento presente que ilumina num instante o livro (ou o negligencia) e tira dele o que quer; e se torna a boa vontade assídua que ama a cultura, que acima de tudo ama os livros e os respeita e os salva, esta passividade sem limites da compreensão, esta espécie de generosidade branda, esta vida inteira fechada nos limites dos livros e inteiramente consagrada a estudá-los, louvá-los, enriquecê-los, a fazê-los durar e finalmente a elevá-los ao céu sublime do atemporal: encantamento bizarro que representa para nós, num grau sem dúvida admirável, um crítico como Charles du Bos.

Isso não é tudo. É claro que a contrariedade exige anda mais e que ela não atinge seu verdadeiro ponto senão no momento em que crítico e obra se confundem, quando isto que chamamos de consciência criadora aceita perder-se no olhar superficial do dia e afirma-se cúmplice da preocupação que a ignora. Em que resulta isso? Certamente num tormento bastante grande; certamente, muitas vezes numa confusão infeliz e num consentimento provavelmente estéril àquilo que não se pode, contudo, aceitar. Mas isso talvez não importe, pois o importante é que o criador se declare solidário, não à vã eternidade para a qual a criação o atrai, mas ao presente perecível que lhe assegura a criação de uma crítica sem amanhã.

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Publicado originalmente em L’Observateur, 18 de maio de 1950. Republicado na revista Trafic nº 2, primavera de 1992.

Traduzido do francês por Calac Nogueira.

Notas:

(1) Sainte-Beuve, Oeuvres, Premiers lundis, Porttraits littéraires, vol. 1 da Bibliothèque de la Pléiade, editora Gallimard. [N.O.]

(2) No original, pronome impessoal “on”. Como na frase anterior Blanchot opunha o “je” ao “nous”, escolheu-se, na ausência de tradução melhor, manter o “nós”. [N.T. ]